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A possibilidade de cura e redenção

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.12.15

Ontem revi na RTP Memória The Naked Spur que já está a navega neste rio. Um dos filmes que revi mais vezes. É um Anthony Mann e é um James Stewart. E são aquelas montanhas que me lembram outras montanhas... E aquele rio caudaloso, como o rio sem regresso...

É, pois, com estas personagens que vou manter este rio a navegar sem saltar 2015. Personagens que se vão juntando por um objectivo comum, um objectivo material, receber uma recompensa. Nenhum se questiona sobre as implicações desse objectivo, uma cabeça a prémio. A não ser o próprio, o foragido, e a rapariga que o acompanha.

O filme vai-se construindo à volta das personagens e dos seus diferentes desejos: o rancheiro que sonha recuperar o rancho perdido; o velho no rasto do ouro; o jovem irrequieto e delinquente; o foragido oportunista e amoral; e a jovem altruísta.

Há um caminho a percorrer e há pausas para descansar. Tal como na vida, as peripécias sucedem-se, os contratempos, mas também as descobertas.

Uma a uma, as personagens vão ficando pelo caminho. Até restarem apenas duas.

A maior descoberta: é preciso começar de um outro ponto de partida. Começar tudo fresco. Sem memórias a persegui-las. Califórnia é um bom destino.

 

Os westerns de John Ford e Anthony Mann são muito mais do que simples histórias de cowboys, rancheiros e índios. São histórias humanas, à dimensão humana. Podiam desenrolar-se num qualquer outro cenário. E são intemporais. A violência, a ganância, a sobrevivência, são actuais. E, com sorte, também a possibilidade de cura e redenção.

 

 

 

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publicado às 20:19

A ilusão do poder da nova barbárie cultural dominante

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.07.13

Montanhas agrestes onde se vive da prospecção de ouro. O médico trata uma mulher que fora encontrada com graves queimaduras do sol depois de um assalto. Um rapazinho armado em herói protege-a naquele mundo hostil. A mulher recupera a visão e as forças e luta pela sua autonomia. O médico ajuda-a de forma discreta mas, numa reviravolta da vida, a mulher e o rapazinho vêem-se na posse de um filão. O médico ver-se-á em apuros ao matar um seu agressor. A mulher irá salvá-lo nem que para isso se tenha de desfazer da sua parte da prospecção. Os homens seguram os papéis que lhes conferem a posse do filão, mas o que vemos ao olhar para aqueles dois é que o verdadeiro filão está dentro de cada um de nós.

 

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publicado às 00:00

Valores humanos fundamentais: a autonomia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.12.12

O último valor humano fundamental desta série que aqui coloco a navegar neste rio, nesta época de reflexão, é a autonomia. O primeiro foi a liberdade. Mas da liberdade à autonomia tivemos de passar pelos outros valores que a formam: responsabilidade e bondade, ou simples empatia, respeito pelo próximo.

No fundo, autonomia é próprio da maturidade do adulto, que já aqui colocámos a navegar. A autonomia é a resposta da maturidade, é a atitude da responsabilidade. Não depende de pressões ou orientações de outros, depende apenas da consciência do próprio. O adulto autónomo põe os valores da vida em primeiro lugar e só depois considera as outras variáveis.

 

A autonomia é esse patamar, por isso é que existe uma diferença entre liberdade e autonomia: a liberdade é dada ou conquistada, a autonomia é aprendida e ensaiada pelo próprio. Esse ensaio é a fase da rebeldia, a adolescência.

Neste The Little Foxes, igualmente dos anos 40, e que já está a navegar neste rio a propósito da linguagem do poder, vemos como uma rapariguinha aprende com o pai a atitude correcta do respeito pelos outros e ensaia o caminho da autonomia. Vemos a sua coragem ao enfrentar a mãe e o seu ascendente manipulador. A cena final das escadas, a mãe que olha para baixo, para a filha, e esta que olha para cima, para a mãe, é simplesmente extraordinária. É um William Wyler, não esquecer.

Por momentos pensamos que a rapariguinha vai ceder, tão triste pela morte do pai, tão subitamente sozinha, mas a sua voz e o seu olhar dizem tudo. Há os que se apropriam do território, destruindo tudo à sua passagem, e há os que ficam a ver. Ela não vai ficar a ver.

Reparem na última imagem da mãe na janela a vê-la partir, com o namorado, duas figurinhas na noite chuvosa. O seu olhar parece mais assustado do que confiante. Quem afinal vai enfrentar a solidão e os fantasmas do passado e do presente é quem se baseia na linguagem do poder, na manipulação e na ganância.

 

 

 

 

 

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publicado às 21:26

 

Death on the Nile é um Agatha Christie muito bem adaptado, como aliás todos os que vi até hoje. Os seus livros já são tão visuais, digamos assim, que é só uma questão de estarmos a vero mesmo filme através de outros olhos.

Os cenários estão tão bem concebidos! Aquele barco desliza numa paisagem magnífica e transporta todas as emoções humanas do catálogo: ganância, ciúme, inveja, ódio, vingança...

 

Só este contraste já é fabuloso, não acham? A extraordinária beleza e magnificência das ruínas e a morte sempre a espreitar a jovem milionária.

E pensar que os suspeitos são muitos, quase todos os que navegam naquele rio, e cada um com o seu motivo!

 

Não vou aqui revelar o assassino. Só gostaria de chamar a atenção para alguns pormenores deste filme:

- reparem como junta aqui actores veteranos como Bette Davis, Maggie Smith, Angela Lansbury, Peter Ustinov, David Niven, Jack Warden, George Kennedy... e todos eles magníficos na pele das suas personagens!

- aquele duo Bette Davis-Maggie Smith, que as circunstâncias adversas da vida de uma permitem que a outra exerça o seu poder. Estão de certo modo ligadas por essa linguagem do poder que liga tantas relações humanas... As suas discussões são deliciosas.

- também Peter Ustinov e David Niven fazem aqui uma equipa muito divertida.

- é verdade, há quem considere que o melhor Poirot foi Albert Finney no Murder on the Orient Express. A meu ver, mas não vou discutir por isso, o melhor talvez seja mesmo o da série televisiva Agatha Christie: Poirot, David Suchet. De qualquer modo, Peter Ustinov não vai nada mal aqui na pele de Poirot.

 

 

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publicado às 14:51

O Natal e o amor genuíno

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.09

 

O Natal sugere-nos autores como Charles Dickens, Hans Christian Andersen, Oscar Wilde...

E filmes como os Capra ou alguns musicais: Meet me in Saint Louis, por exemplo, que em breve aqui quero colocar a navegar... ou o eterno Música no Coração...

 

Este Natal dou por mim a lembrar-me de cenas de filmes que em princípio nada têm a ver com o tema que procuro, mas que os meus neurónios insistem em associar. E é assim que hoje me surge o Tennessee Williams e o Richard Brooks em Gata em Telhado de Zinco Quente.

Um patriarca poderoso, uma família a gravitar à sua volta, mulher submissa e primogénito obediente incluídos, duas noras, uma ambiciosa, outra realista.

Um único elemento foge ao seu controle: o filho mais novo, o seu bem-amado.

Podem questionar-me, o que é que isto tem a ver com o Natal, que eu direi: Tem tudo. Uma família, conflitos de interesses, discussões, lutas pelo poder. E a possibilidade, milagrosa, da comunicação entre um pai poderoso e um filho falhado.

Há aqui de certo modo a repetição da Parábola do Filho Pródigo, mas em que este filho se torna a solução de todo o dilema da linguagem do poder, quando o poder se desmorona.

 

A cena-chave é a conversa pai-filho na cave da casa, já perto do final do filme. Por esta altura, já todos sabemos (menos o próprio) que o patriarca está muito doente, que os resultados dos exames médicos a que se submetera tinham confirmado o pior.

Também sabemos que o filho mais velho, instigado pela mulher ambiciosa, prepara o terreno para suceder ao pai nos negócios e na gestão da propriedade. Vemos desde o início a forma sistemática de apropriação do poder, em que tudo é jogado ao milímetro, usando os próprios filhos (e são muitos e barulhentos) como animais de circo amestrados.

A mulher realista, aplica-lhes um nome que lhes cai na perfeição: no neck monsters. Avisa aliás o marido da sua situação vulnerável e em clara desvantagem em relação ao irmão: tornara-se um alcoólico e não têm filhos.  (1) Acorda-o para a sua própria realidade: como irá sustentar o vício se o irmão tomar o controle de tudo? Sei o que é ser pobre, diz-lhe também. Vemos como esta mulher defende o marido das críticas da cunhada e como utiliza as únicas armas que tem: a capacidade de agradar aos homens, é jovem e bonita. Sabe, e di-lo ao marido, que o Big Daddy gosta dela.

Sim, por esta altura também sabemos que a mentira se instalou naquela casa. E o cerco começa a fechar-se à volta da mulher submissa, da que toda a vida vivera na sombra do patriarca, que a ele se dedicara, mesmo que negligenciada. É aqui que percebemos a diferença abissal entre as noras: a ambição mesquinha e a defesa de um lugar legítimo. Na ambição mesquinha não há lugar para o respeito, a sensibilidade e a compaixão. Atropela-se tudo e todos pelo caminho.

A cena-chave surge mais ou menos por aqui. O Big Daddy refugia-se na cave e é aí que enfrenta a verdade pela primeira vez. A verdade que se recusa a aceitar no início. Mas que as dores cada vez mais fortes lhe vão revelando. E finalmente, a frontalidade do próprio filho.

 

Porque gosto tanto desta cena? E porque a associo ao Natal? Aí vai:

Este filho, alcoólico, desportista falhado, mostra ao seu pai, poderoso e dominador, que a verdadeira força está no amor genuíno e não nas coisas que lhes dera.

É nesse desespero do filho, a partir objectos de viagens pela Europa, que o pai finalmente percebe a diferença: You owned us! é bem diferente do amor que ele próprio tivera em miúdo.

É isso que finalmente percebe quando pega na única coisa que o seu próprio pai lhe deixara, uma velha mala, uma velha mala, insiste, e um velho uniforme.

Mas o seu olhar ilumina-se imediatamente ao falar do pai, daquele velho vagabundo, e da felicidade desses anos juntos, da alegria do companheirismo, do amor genuíno.

 

Às vezes temos de ir às origens, à raíz, escavar emoções e sentimentos, o essencial de nós. Pode ter sido fugaz, breve, e muito longínquo, mas é isso que conta, a base de tudo, a nossa razão de viver. Só a partir daí é possível enfrentar a morte próxima, ou o fracasso e a cobardia.

O realizador deu esta tónica ao filme. O Big Daddy sai da cave determinado a viver os últimos dias que lhe restam de uma forma significativa. E o filho liberta-se finalmente do seu próprio pesadelo e deixará de rejeitar a mulher.

 

Não era esse o final que o Tennessee Williams queria, nem era essa a tonalidade da peça, segundo o que percebi num documentário. Mas eram os anos 50. (2) E também o que me prende ao filme não é essa perspectiva de análise possível das personagens. O que me prende ao filme é a discussão pai-filho naquela cave.  (3)

 

 

 

(1) Elizabeth Taylor aqui talvez no seu melhor papel de sempre, mulher sensual e insinuante, que o marido rejeita. A sua insistência mostra a sua força interior. É bem verdade que esta mulher tem vida dentro de si, como lhe dizem na cena final do filme.

(2) De certo modo, esta peça de Tennessee Williams é muito actual, numa altura em que se fala da forma mais ignorante, artificial e espalhafatosa das complexidades individuais, em que se reduz a identidade de alguém às suas opções pessoais de vida. Na peça há uma clara referência à homossexualidade recalcada do filho alcoólico e da sua relação com o amigo que se suicidara. Esta perspectiva da personagem é mais verosímil do que a apresentada no filme e não me admira nada que o Tennessee Williams tenha ficado decepcionadíssimo com as cenas finais. Mas como disse ali atrás, eram os anos 50, os anos moralistas do cinema.

(3) É também o meu papel preferido de Paul Newman, de copo na mão, no papel de desportista falhado, de desistente da vida. Embora tenha de reconhecer que poucos são os papéis que representou que eu não tenha adorado!

 

 

 

 

 

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publicado às 21:27

Australia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.05.09

 

Neste fim-de-semana prolongado deu tempo até para ver cinema em casa. Escolhi o Australia, ou foi este filme que me escolheu. É que as cópias já estavam todas esgotadas (1 de Maio!) mas a jovem simpática do Clube Vídeo adiantou-se: Acabaram de entregar uma cópia (era a hora-limite de entrega dos filmes alugados).

Australia veio comigo, pois. Expectativas? Baixas: imaginava-o um filme de encomenda para os actores brilharem e pouco mais. Uma publicidade ao país dos cangurus, também. Um filme de aventuras com todos os ingredientes habituais: herói bonito e corajoso; heroína bonita e rebelde; paixão q.b.; perigos q.b.; diálogos trabalhados ao milímetro para prender a atenção e o interesse; cenas com muita acção, etc.

 

Surpreendentemente, este filme é despretensioso, luminoso, mágico. Não fazia ideia que iria focar a cultura aborígene, que sempre me fascinou, vá-se lá saber porquê.

Começa por nos introduzir aquele terrível racismo: as crianças aborígenes mestiças eram retiradas aos pais e enfiadas numa Missão para ser domesticadas e formatadas segundo a cultura dominante. Também os bares (e outros lugares públicos) eram interditos a pretos.

Ora, o nosso herói (magnífico Hugh Jackman) foge à regra, convive com os pretos. Esta circunstância obriga-o a uma actividade extra (andar à pancada, o chamado boxe de rua ou uma modalidade do boxe, melhor dito, porque aqui tudo vale, até atirar malas de viagem ao adversário).

Esta cena da pancadaria à frente do bar está mesmo fabulosa, lembrou-me os westerns dos anos 40, 50. A Lady Ashley (fabulosa Nicole Kidman) é que não achou graça nenhuma ao ver a sua roupa interior a voar no meio daqueles homens-espectadores, e tocada pelo lutador que ficou de pé: Bem-vinda à Australia!

 

O nosso herói, Drover (o que leva o gado) também tinha sido responsabilizado por levá-la a casa, numa carripana desengonçada. Essa viagem inclui outra série de cenas bem conseguidas e divertidas, a lembrar desta vez os diálogos cheios de equívocos e de provocações bem-humoradas das comédias românticas dos anos 30 (e como o guarda-roupa é dessa época surge quase a ilusão de viajar no tempo).

Drover explica-lhe que é um homem independente: Ninguém me contrata, ninguém me dá ordens. E dir-lhe-á, filosoficamente: A única coisa que temos é a nossa história.

Mas Lady Ashley não se deixa impressionar, para ela tudo aquilo é uma vida de aventura que também terá fascinado o marido. Uma vida sem responsabilidades.

Os equívocos linguísticos são mesmo hilariantes, Drover fala-lhe de cavalos, Lady Ashley vê-lhes um segundo sentido... A sua opinião do marido também não é lá muito famosa. Imagina-o ali numa vida devassa e só mais tarde irá ver a sua verdadeira motivação, o seu sonho, e dar-lhe sequência.

 

Entretanto, passei por cima das cenas iniciais com o miúdo, Nullah, que se apresenta directamente como não sendo branco, nem preto, não tendo lugar... e o avô, King George, que lhe ensina as histórias, as canções mágicas, tornar-se invisível...

Ficamos a saber que Lord Ashley é morto nesse charco com uma lança aborígene, para despistar.

E ficamos a saber também que o miúdo vive apavorado com receio de ir parar à tal Missão, refugiando-se no tanque de água, de onde espreita Lady Ashley, a mulher mais estranha que já tinha visto.

Para ele, Lady Ashley passará a ser Mrs. Boss. E só depois do funeral de Lord Ashley é que a deixa vê-lo e cantará para ela.

Diz-lhe de forma misteriosa: Vai curar esta terra.

 

A verdadeira aventura começa quando Lady Ashley aceita o desafio, esse sonho quase impossível de levar as melhores cabeças de gado para Darwin.

Mas antes será ela a cantar para Nullah, essa canção de sonhos que encaixa tão bem com o imaginário da cultura aborígene. Tem até um feiticeiro, as chuvas, a Serpente do Arco-Íris...

E o sonho começa a tornar-se possível quando até o bêbado Kipling Flynn (o contabilista) aparece sóbrio.

Já repararam nos nomes de todas as personagens, como são de ficção? Até o cozinheiro chinês, Sing Song, não era o mesmo do cozinheiro da série Bonanza?

 

Bem, voltando ao filme: Outra cena deliciosa, a do desfiladeiro, com o Kipling Flynn a tocar a canção de sonhos ("O Feiticeiro de Oz").

O pobre do Kipling, que irá ficar estendido numa largada da manada e perguntará pelo miúdo, antes de pedir um pouco da bebida de reserva que levara à socapa para circunstâncias especiais.

Cena comovente a do miúdo a enfrentar a manada, quase a escorregar pelo precipício. E depois, já nos braços de Lady Ashley, quando o Drover se aproxima e percebe que, pelo menos naquele momento de aflição, são já uma família no plano dos sentimentos. Drover percebe, pela primeira vez, que está ligado àqueles dois.

Nessa segunda noite bebem em memória do Kipling Flynn e dançam o foxtrot, como explicam, atrapalhados, ao miúdo quando lhes pergunta se é uma dança cerimonial.

Também comoventes (pelo menos para mim) estas lines dos nossos heróis, ao despedir-se nessa noite de descobertas: Acho que daria um óptimo pai... Acho que daria uma óptima mãe...

 

Depois da travessia da Terra do Nunca, guiados pelo King George, a corrida para entregar o gado no barco de metal.

Nullah irá ao cinema ver O Feiticeiro de Oz e os nossos heróis dançarão o foxtrot no Baile.

A chuva cai, para alegria de todos! Drover avisa-a: Na estação seca eu irei levar o gado.

Mas agora está a chover.

 

Doloroso dilema, este de uma mãe do coração aceitar que Nullah terá de fazer a caminhada, partir por uns tempos com o avô. Drover dir-lhe-á que sem isso Nullah não terá história, os sonhos necessários à existência.

Eu compreendi quando disseste que querias ser livre. Mas agora é diferente, nós temos o Nullah.

Mas também Drover viverá o seu dilema doloroso, quando o seu irmão o confronta com a dor de que foge para evitar sofrer:

Estás a fugir. Se não tiveres amor no coração não tens nada. Nem sonho, nem história, nem nada.

Esta cena, do diálogo de irmãos, lembrou-me um outro filme mágico, As Vinhas da Ira, mas apenas na atmosfera, no cenário, pois parecia mesmo um cenário por trás. (Ah, a atmosfera de John Ford...).

 

E não foi apenas esta cena a transportar-me para outras atmosferas, de outros filmes. A cena da invasão de Darwin pelos aviões japoneses e do King George a caminhar tranquilo entre as explosões, lembrou-me O Império do Sol de Spielberg, aquela cena do telhado do Hospital, lembram-se?, quando Jim quase enlouquece ao ver os aviões americanos a rasar os telhados? (J. G. Ballard, o Jim, partiu há dias mas para mim também ficará para sempre nas histórias e nas canções mágicas).

 

Contar histórias é o mais importante. É como mantemos connosco as pessoas que amamos.

 

Australia mostrou-me essencialmente que:

- o cinema é uma linguagem universal, que também vive das suas histórias, das suas personagens, das suas canções mágicas...

- a cultura aborígene sabe que a terra tem um poder, e que as canções mágicas formam caminhos onde não nos perdemos...

- a magia do cinema é da mesma matéria dos sonhos e das canções mágicas.

 

 

 

Obs.: Já que a Feira do Livro de Lisboa está aí, sugeria um livro mágico, O Canto Nómada, de Bruce Chatwin (editora Quetzal).

Apenas um excerto:

Na infância, nunca ouvi a palavra 'Australia' sem que me viessem à cabeça os vapores do inalador de eucalipto e a ideia de um país de cor uniformemente vermelha povoado de carneiros. ...

Tinha na estante um livro sobre o continente australiano e eu olhava, maravilhado, para as fotografias dos coalas e dos martins-caçadores, dos ornitorrincos e dos diabos-do-mato da Tasmânia, do Velho Homem Canguru e do Cão Amarelo Dingo, e da ponte do porto de Sydney.

Mas a fotografia de que eu mais gostava era a de uma família aborígene em viagem. Eram magros e esguios e estavam nus. A sua pele era muito preta, não daqule preto brilhante dos negros, mas um preto baço, como se o sol lhes tivesse sugado qualquer possibilidade de reflexo. O homem tinha uma barba comprida em forquilha e transportava uma lança, ou duas, e um arremessador de lanças. A mulher carregava uma sacola e um bébé pendurado ao peito. Um rapazinho caminhava ao lado dela - identifiquei-me com ele.

Lembro-me dos primeiros cinco anos fabulosos que fiquei sem casa. O meu pai estava na Marinha, no mar, e a minha mãe e eu andávamos de um lado para o outro de comboio a visitar amigos e parentes na Inglaterra em tempo de guerra. ...

Quanto a histórias para adormecer, a minha favorita era o conto da cria do coiote do livro de Ernest Thompson Seton, 'Lives of the Hunted.'

Coiotito era o patinho feio de uma ninhada cuja mãe fora morta pelo 'cowboy' chamado Wolfer Jake. Os seus irmãos e irmãs tinham sido abatidos e a sua vida fora poupada para treinar os mastins de Jake. A imagem dele, amarrado, era a coisa mais triste que jamais vira. No entanto, Coiotito cresceu e tornou-se esperto e, certa manhã, fingiu-se de morto e conseguiu escapar para o mato, onde se dedicou a ensinar a toda uma nova geração de coiotes a arte de evitar os homens.

Não consigo agora explicar as associações que me levaram a relacionar a tentativa de evasão de Coiotito com a 'errância' dos Aborígenes australianos. Nem, no que diz respeito a este assunto, quando ouvi a expressão 'errância' pela primeira vez. Contudo, fiquei com uma imagem desses dóceis 'Blackfellows' que, um dia, trabalham despreocupadamente numa fazenda de gado e, no outro, levantam a tenda e desaparecem no ar sem uma palavra de aviso e sem qualquer razão.

Despiam os fatos de trabalho e partiam durante semanas, meses ou até anos a fio, percorrendo meio continente apenas para encontrar alguém e, depois, regressar como se nada tivesse acontecido. ...

 

 

 

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publicado às 20:29

É possível resistir à linguagem do poder

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.07.08

 

O que mais impressiona em The Little Foxes é a linguagem do poder e da manipulação, perfeitamente visível num clã sulista, os Hubbard, comandados pela irmã (magnífica Bette Davies).

Esta mulher dominadora tentará domesticar a filha como pensa ter domesticado o marido. Pura ilusão, este homem suave e de saúde frágil segue valores sólidos, dos quais não irá abdicar nunca. Sim, ao marido terá mesmo de o neutralizar.

É que para conseguir levar a cabo os seus planos ambiciosos, esta mulher utiliza todos os recursos possíveis da paleta: insinua-se, seduz, manipula e recorre à chantagem. É assim que consegue dominar o seu pequeno mundo: os irmãos, o sobrinho e, por arrastamento, a cunhada. O grande negócio está prestes a ser conseguido. O acesso à alta sociedade da grande cidade também.

 

É certo que a filha (comovente Teresa Wright) já mimetiza, de certa forma, os seus tiques de snobismo e de arrogância. Mas no final serão os valores do pai e do namorado que prevalecem, sobre a influência materna. Sim, a filha resiste-lhe no final e escolhe o caminho da vida real, dos afectos e do respeito pelos outros.

Impressionante confronto entre uma Bette Davies subitamente solitária, subitamente assustada, no cimo da escadaria, e uma comovente Teresa Wright em baixo, no "hall", a olhar para cima, tão jovem, tão doce, tão magoada, e no entanto, tão forte, a despedir-se da mãe.

Trata-se da opção pela vida, pela liberdade, pela autonomia. Aqui vemos o perfeito contraste com a linguagem do poder, da manipulação, da dependência. É esta, a meu ver, a ideia central do filme. O mais forte é, no final de contas, o mais fraco; o que pensávamos mais fraco é afinal, o mais forte.

 

Mas não nos iludamos: a linguagem do poder, na sua voracidade insaciável, faz estragos. O amado pai da nossa jovem jaz, morto, lá em cima, no seu quarto. E por pouco também ela própria se podia ter deixado enredar na terrível influência materna e ter-se transformado numa sua segunda versão, anulando todas as possibilidades de crescer, de se autonomizar, de se afirmar de forma saudável, de amar e ser amada.

Na cena final vemo-la com o namorado, pelo pátio exterior da casa, na noite chuvosa. Numa das janelas, o rosto impressionante da mãe, a vê-los afastar-se.

 

 

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publicado às 15:13

O indivíduo e a comunidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.07

Em It’s a Wonderful Life não é só recuperar a vida, é dar-lhe um novo sentido. É entender todo o percurso.

O que parece uma série de cedências, de desistências, de sonhos desfeitos ou adiados, transforma-se no essencial da sua vida. O que parece um terrível falhanço, de oportunidades perdidas, ganha uma dimensão maior, de comunidade. Aquele homem tocara a vida das pessoas mais próximas e, sem o saber, de muitas outras vidas.

Os diálogos em Capra… as personagens… o tempo certo, a magnífica gestão do tempo e das ideias…

E as pequeninas coisas, a dimensão que ganham na vida de uma pessoa. O corrimão a precisar de arranjo, as pétalas da flor da filha. Capra entende a alma humana, os desejos, os sonhos, as angústias, as dúvidas, as frustrações.

E propõe uma verdadeira reviravolta na lógica inexorável da evolução humana. Aqui o essencial permanece: a amizade, o valor da vida, a lealdade, a gratidão.

Mas já repararam bem com que modelo de cidade e de estilo de vida se assemelham as nossas cidades actuais? Capra soube prevê-lo nos anos 40. Está lá tudo ou quase tudo. Não é fascinante?

 

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publicado às 16:30

Thunderheart

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.11.07

Maravilhosa metáfora para os tempos actuais… no país, na Europa, no mundo… Revejo o filme com a mesma alma rebelde, e já lá vão quinze anos… Voltei sempre a esse Thunderheart para me lembrar que às vezes o indivíduo e o grupo podem enfrentar interesses obscuros e dominantes.

The suits… the Cavalry… a que o nosso herói julga pertencer no início e de que se vai distanciando ao longo do filme. À medida que encontra as suas verdadeiras raízes, que o sistema lhe tinha ensinado a rejeitar e a abandonar, deixando-o sempre inseguro, a agarrar-se a certezas exteriores, autoridade, justiça, the FBI…

A realidade exterior do sistema contrasta com a realidade humana das populações, da comunidade. E isso torna-se evidente, não se pode negar. Quem se aproxima dessa outra realidade, da humana, e ainda mantém uma réstia de humanidade na alma… desmonta essa fabricação.

Aqui o nosso herói recupera essa base de apoio e afirma-se como é, antes da programação. Irá seguir as suas raízes índias, o lado do pai. Mas ainda terá de sofrer esse abalo, descobrir que tinha seguido a mãe na negação e rejeição do pai. A identidade masculina faz-se sempre por diferenciação e implica a paz com o pai dentro de si.

Deliciosa expressão do suit, ao persegui-lo de carro, na cena final: He's going native on us... E deliciosa visão final do grupo, da comunidade índia, que aparece em cima dos montes, a toda a volta… como o bater de um grande coração universal… A visão da esperança dentro de cada um de nós…

 

 

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publicado às 11:25

O melhor filão está dentro de nós

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.10.07

 

De novo a mulher, o homem e o rapazinho, mas desta vez não um rapazinho-criança, como no Rio sem Regresso. Um rapaz a caminho da sua autonomia, com uma voz própria, aliás, mais madura por vezes que a voz dos homens, que alia coragem e determinação a ternura e cuidado.


De novo esta estranha composição, seres vulneráveis e sós, que se apoiam e se ligam por laços tão fortes como o seu desamparo. Na natureza áspera e selvagem das montanhas, onde homens igualmente ásperos e selvagens procuram o eterno filão.


A cegueira da mulher e a visão que vai adquirindo, com o apoio do homem e do rapaz, em quem aprende a confiar, tem um sentido mais profundo. Medo da claridade, da verdade, da perda, da dor? O homem ajuda-a a libertar-se desse medo de ver, de viver, mas foge do seu próprio medo de amar, de confiar. E de ser assim amado, de forma tão inteira. O rapaz entende tudo isso e di-lo, sem rodeios. Será ele o protector da mulher, a sua companhia, o seu afecto. O homem apoia-os de longe, em segredo.


Até tudo se precipitar e ultrapassar as nossas personagens. Circunstâncias próprias da natureza humana, a sua terrível ambição e mesquinhez, a descoberta de um filão. E o seu terrível sentido de posse, de território. A sua boçalidade.


O amor do homem, que tinha surgido da forma mais suave e quase maternal, ao ajudá-la a abrir os olhos e a ver, também o cegará de ódio e despertará nele a luta mais primitiva quando a vê em perigo.


E é quando tudo parece perdido, o homem rodeado pelos justiceiros e sedentos de espectáculo, na hanging tree, que é salvo pelo amor que receia, de que foge. A mulher e o rapaz vêm resgatá-lo, o filão pelo amor. Como pode ele continuar a fugir? Elizabeth. Inclina-se sobre ela, a imagem poética e sensual.


Estranha natureza humana: quando o pior de nós surge, o melhor de nós surge também, o melhor filão, o genuíno, o que perdura, o que está vivo.

 

 

 

 

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publicado às 10:21


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